Imagine caminhar por ruas estreitas de pedra, observar casas incrivelmente esculpidas nas encostas de um cânion e descobrir que muitas delas continuam habitadas até hoje. Parece cenário de um filme histórico, mas esse lugar existe de verdade. Trata-se dos Sassi di Matera, um dos assentamentos humanos continuamente ocupados mais antigos do planeta.
Localizada no sul da Itália, a cidade de Matera guarda um patrimônio arqueológico e cultural que atravessa milênios. Suas habitações escavadas diretamente na rocha calcária testemunharam o surgimento da agricultura, a passagem de diferentes civilizações, o crescimento do cristianismo primitivo e profundas transformações sociais ao longo dos séculos.
Muito além da beleza arquitetônica, os Sassi revelam uma extraordinária capacidade humana de adaptação ao ambiente. Ali, gerações inteiras aprenderam a transformar a própria montanha em moradia, criando um modo de vida único que hoje fascina historiadores, arqueólogos e viajantes de todas as partes do mundo.
Onde ficam os Sassi di Matera?
Matera está situada na região da Basilicata, no sul da Itália, aproximadamente entre Nápoles e a costa do Mar Adriático.
A cidade foi construída às margens da Gravina di Matera, um profundo desfiladeiro escavado naturalmente ao longo de milhares de anos. Foi justamente a composição da rocha calcária — relativamente macia quando escavada, mas resistente após exposta ao ar — que permitiu a criação das famosas casas subterrâneas.
Os dois bairros históricos conhecidos como Sasso Caveoso e Sasso Barisano concentram centenas de construções escavadas na própria montanha. À primeira vista, parece impossível distinguir onde termina a natureza e começa a arquitetura.
Essa integração perfeita entre paisagem e construção tornou Matera uma das cidades históricas mais impressionantes do continente europeu.
Uma história que começou há mais de 9 mil anos
Poucos lugares no mundo conseguem apresentar uma ocupação humana praticamente contínua durante um período tão longo.
As evidências arqueológicas indicam que grupos humanos já utilizavam as cavernas naturais da região durante o período Neolítico, cerca de 7.000 anos antes de Cristo.
Naquela época, essas cavidades ofereciam inúmeras vantagens:
- proteção contra o frio e o calor extremos;
- segurança contra animais selvagens;
- facilidade para armazenar alimentos;
- proximidade com fontes de água.
Com o passar dos séculos, essas cavernas naturais foram sendo ampliadas manualmente.
O que inicialmente eram simples abrigos transformou-se em verdadeiras residências.
Mais tarde surgiram ruas, escadarias, cisternas, igrejas, celeiros, oficinas e áreas comunitárias.
Assim nasceu uma cidade inteira literalmente esculpida na pedra.
Como eram construídas as casas escavadas na rocha?
O segredo está na própria geologia da região.
A rocha calcária conhecida como tufo calcário permitia ser retirada com ferramentas relativamente simples.
Os moradores escavavam o interior da montanha, retirando blocos de pedra que, posteriormente, eram utilizados para construir a fachada externa da residência.
Ou seja:
- o interior era cavado;
- o material retirado servia para erguer paredes externas;
- praticamente nada era desperdiçado.
Esse sistema reduzia significativamente o esforço de transporte de materiais e criava um excelente isolamento térmico.
Mesmo durante os verões intensos do sul italiano, o interior das casas permanecia surpreendentemente fresco.
No inverno, acontecia o contrário: o calor era conservado naturalmente.
Era uma solução arquitetônica extremamente eficiente muito antes do surgimento dos conceitos modernos de construção sustentável.
Um engenhoso sistema de captação de água
Uma das maiores curiosidades de Matera é que a cidade praticamente não possuía rios permanentes.
Isso obrigou seus habitantes a desenvolver uma sofisticada engenharia hidráulica.
Ao longo dos séculos foram construídas:
- cisternas subterrâneas;
- canais de drenagem;
- reservatórios comunitários;
- sistemas de filtragem da água da chuva.
Cada telhado fazia parte desse sistema.
A água escorria cuidadosamente por canais escavados na pedra até enormes reservatórios subterrâneos.
Esse modelo permitiu que a população sobrevivesse durante séculos em uma região naturalmente seca.
Hoje muitos desses reservatórios ainda podem ser visitados.
Igrejas escondidas dentro das montanhas
Além das moradias, Matera abriga dezenas de igrejas rupestres.
Muitas delas foram escavadas diretamente na rocha entre os séculos VIII e XIII por monges que buscavam isolamento espiritual.
Esses templos impressionam pelos detalhes.
Mesmo totalmente esculpidos dentro da pedra, apresentam:
- altares;
- colunas;
- nichos;
- afrescos bizantinos;
- capelas ornamentadas.
Algumas pinturas ainda preservam cores originais após centenas de anos.
Esse conjunto religioso tornou Matera um importante centro espiritual durante a Idade Média.
Quando viver nos Sassi deixou de ser um privilégio
Embora hoje seja um destino turístico sofisticado, houve um período em que viver nos Sassi representava extrema pobreza.
Entre os séculos XIX e início do século XX, as antigas cavernas passaram a abrigar famílias numerosas.
Era comum encontrar:
- pessoas;
- animais domésticos;
- depósitos de alimentos
dividindo o mesmo ambiente.
A falta de saneamento favorecia doenças e elevava significativamente a mortalidade infantil.
Na década de 1950, o governo italiano classificou os Sassi como uma vergonha nacional.
Milhares de moradores foram transferidos para bairros modernos construídos fora do centro histórico.
Durante alguns anos, grande parte das cavernas permaneceu abandonada.
O renascimento de Matera
O abandono acabou despertando outro movimento.
Arquitetos, historiadores e arqueólogos perceberam que aquele conjunto urbano possuía valor histórico incomparável.
Iniciou-se então um longo processo de restauração.
As antigas cavernas foram recuperadas respeitando sua arquitetura original.
Hoje muitas delas funcionam como:
- hotéis boutique;
- restaurantes;
- cafés;
- museus;
- galerias de arte;
- residências particulares.
O curioso é que diversas famílias voltaram a morar nos Sassi, agora com infraestrutura moderna instalada discretamente para preservar o aspecto histórico.
Assim, o lugar recuperou sua função original de bairro residencial.
Reconhecimento mundial
Em 1993, a UNESCO reconheceu os Sassi di Matera como Patrimônio Mundial.
O título foi concedido porque a cidade representa um exemplo extraordinário da adaptação humana ao ambiente natural durante milhares de anos.
Décadas depois, outro importante reconhecimento aconteceu.
Em 2019, Matera foi escolhida como Capital Europeia da Cultura.
O evento impulsionou investimentos em restauração, turismo e preservação do patrimônio histórico.
Hoje a cidade recebe visitantes do mundo inteiro interessados em conhecer uma das paisagens urbanas mais antigas ainda habitadas.
Matera também conquistou Hollywood
Quem visita Matera costuma ter a sensação de estar caminhando por uma cidade bíblica.
Não por acaso, inúmeros diretores escolheram esse cenário para grandes produções cinematográficas.
Entre elas estão filmes ambientados na Antiguidade e em narrativas bíblicas.
As ruas estreitas, a arquitetura em pedra e o aspecto quase intocado criam uma atmosfera que dificilmente pode ser reproduzida em estúdios.
Essa exposição internacional contribuiu para aumentar ainda mais a fama da cidade.
Como é viver hoje em uma casa escavada na rocha?
Ao contrário do que muitos imaginam, morar nos Sassi atualmente não significa abrir mão do conforto.
As residências passaram por cuidadosas adaptações.
Hoje muitas possuem:
- internet;
- aquecimento;
- climatização;
- banheiros modernos;
- iluminação planejada.
Entretanto, toda modernização precisa respeitar rígidas normas de preservação histórica.
Os proprietários não podem alterar livremente a estrutura original das construções.
Cada intervenção busca manter viva a identidade arquitetônica construída ao longo de milhares de anos.
Curiosidades surpreendentes sobre os Sassi di Matera
Além de sua impressionante antiguidade, Matera guarda fatos pouco conhecidos.
A cidade possui um formato vertical. Em muitos pontos, o telhado de uma casa funciona como rua ou praça para outra residência construída acima.
Grande parte da cidade está escondida. Muitos ambientes ficam completamente abaixo do nível das ruas.
O silêncio chama atenção. Como as construções são feitas em pedra espessa, os sons externos são naturalmente reduzidos.
A iluminação natural foi cuidadosamente planejada. Muitas casas utilizam a posição do Sol para manter boa luminosidade durante o dia.
Cada geração ampliava sua casa. Em vez de construir uma nova residência, muitas famílias simplesmente continuavam escavando novos cômodos.
Vale a pena visitar Matera?
Sem dúvida.
Matera oferece uma experiência completamente diferente dos destinos turísticos tradicionais da Itália.
Em vez de grandes avenidas ou monumentos renascentistas, o visitante encontra uma cidade que preserva a relação entre homem e natureza construída ao longo de milhares de anos.
É possível caminhar por vielas estreitas, visitar igrejas escavadas na pedra, conhecer museus subterrâneos, experimentar a culinária típica da Basilicata e contemplar um dos pôr do sol mais bonitos do país, quando as fachadas douradas refletem a luz sobre o desfiladeiro da Gravina.
Para quem aprecia história, arqueologia, arquitetura e curiosidades sobre antigas civilizações, Matera é um destino inesquecível.
Criatividade que Supera Desafios
Os Sassi di Matera são muito mais do que um conjunto de antigas cavernas. Eles representam uma impressionante demonstração da criatividade humana diante dos desafios impostos pela natureza. Ao longo de mais de nove mil anos, diferentes povos transformaram a rocha em abrigo, desenvolveram soluções engenhosas para captar água, construíram igrejas, ruas e bairros inteiros e preservaram um modo de vida singular.
Depois de enfrentar períodos de abandono e pobreza, Matera renasceu como um dos maiores tesouros históricos da Europa. Hoje, suas casas escavadas continuam habitadas, conciliando conforto moderno com um patrimônio que atravessou milênios. Caminhar pelos Sassi é percorrer uma verdadeira linha do tempo da civilização, onde cada pedra guarda histórias de adaptação, fé, trabalho e resistência.
Mais do que um destino turístico, Matera é um lembrete de que algumas das maiores obras da humanidade não nasceram de grandes palácios, mas da capacidade de transformar o ambiente com engenhosidade e perseverança. É justamente essa combinação de história, beleza e autenticidade que faz dos Sassi di Matera um dos lugares mais fascinantes do mundo.




